Fiquei devendo, conforme o prometido, uma análise mais cuidadosa dos números da pesquisa CNI-Ibope. Certos ou não — há no mercado um excesso de pesquisas para muitas margens de erro... —, a verdade é que, no atacado, eles apontam o que todos já sabemos. Houvesse um corte regional ali, constataríamos que Lula continua na liderança disparada no Nordeste e vai perdendo votos à medida que caminha para o Sul. As urnas refletem as escolhas que ele fez. Escolheu os pobres? Não. Escolheu, para voltar a um termo que cravei faz tempo em Primeira Leitura, o pobrismo — que é coisa muito diferente.
Escolher os pobres implicaria fazer opções econômicas e macroeconômicas que 1) levassem ao crescimento sustentado da economia; 2) criassem as devidas condições para que cidadãos livres fizessem escolhas livres, o que se consegue com a expansão do mercado de emprego e do consumo e com a ampliação das liberdades públicas. Brasileiros se tornando indivíduos, eis a saída. É claro que não basta bater a varinha de condão e decretar: “Cresce, economia”. São necessárias algumas condições objetivas para tanto.
Estão dadas no Brasil? Em parte, sim; em parte, não. O país poderia estar crescendo mais fosse outro o arranjo a que Lula teve de se atrelar para vencer o déficit de confiança com que chegou ao poder. Optou por uma ortodoxia pobre, desprezou alguns fatores indutores do crescimento — na suposição até realista — de que não seriam bem vistos pelo mercado e conseguiu, em 2006, pagar os juros reais que eram pagos em 2002, quando o risco país será 7 vezes maior, se exportava a metade do que se exporta hoje e se devia muito mais. O crescimento não é sustentado porque o investimento é baixo e porque há uma certa lógica fetichista segundo a qual a economia não pode operar com juros abaixo de dois dígitos. Ou vem a inflação. A última ata do Copom já deu um aviso.
Lula fez o quê? Optou por se abraçar à boa reputação que essa ortodoxia heterodoxa lhe rende junto a alguns setores, enquanto investiu pesadamente numa política assistencialista, que transformou a miséria extrema do país em clientela. Sua ampla vantagem no Nordeste, entre os que ganham até um mínimo e entre os menos escolarizados também se traduz pela dianteira entre aqueles que não têm informação. A miséria produz ignorância e serve à mistificação.
Nessas horas, os que teorizam malandramente sobre a democracia costumam indagar: “Ah, então você sugere uma democracia sem maiorias?” Não. A democracia é o regime sustentado pelas maiorias, mas há sempre uma minoria — sim, isso mesmo — que vela por ela. Quem duvidar disso que vá fazer uma pesquisa de opinião pública para saber como o povo gostaria de ver tratados os criminosos. Ou qual foi o destino da República de Weimar. Não, o povo não precisa de guias, mas de instituições sólidas.
O programa Bolsa Família de Lula — olhem eu e Heloísa Helena juntos! — o que faz é eternizar a miséria, uma vez que se estabelecem as portas de entrada, mas não as de saída. O dinheiro consumido na sua manutenção, com um desemprego mantido acima dos 10% — 17% na Grande São Paulo —, se transforma numa máquina eleitoreira muito difícil de ser vencida. Somam-se a isso políticas que concorrem para desistitucionalizar o país, como as cotas raciais nas universidades ou o ProUni (injeção de populismo na veia), e temos o resultado eleitoral que ora se apresenta. Boa parte dos formadores de opinião, rudimentarmente esquerdistas, concordam com esse assistencialismo bocó. Sentem aplacadas as suas culpas.
É nesse sentido que Lula “chavizou” o Brasil, para felicidade e gáudio dos petistas, que podem olhar para os números e se orgulhar: “Lula está com os pobres; Alckmin, com os ricos”. Mas Lula está também, e ele o confessou, com o mercado financeiro. Na sua glossalalia, diz que não precisou de Proer. Era só o que faltava: com os juros reais que ele paga, há vários “Proers” aplicados ao mesmo tempo. Lula oferece a oportunidade fantástica do capitalismo sem risco.
Enquanto isso, os setores médios da sociedade vão tendo seus salários esmagados, e a diminuição da distância entre os mais e os menos aquinhoados — estamos falando de estratos da classe média — diminui. Redistribuição de renda? Não. Diminuição da renda de quem ganha mais. Os empregos que o governo Lula gerou, ficará claro em algum momento, derivam da demissão de quem ganhava mais para a contratação de gente recebendo menos.
O marketing social do governo, no entanto, tem-se mostrado muito competente até aqui, ainda que o país assista a uma corrupção inédita, seja na variedade, seja na intensidade. Isso quer dizer que Lula já venceu o pleito e que nada há a fazer? Não. Não quer dizer. Mas está claro que vencê-lo é tarefa das mais difíceis. Sobretudo porque o PT, ao longo dos anos, em particular dos últimos quatro, aparelhou o Estado como nunca se viu. É uma experiência inédita no país. Faltam-nos história e aporte teórico para avaliá-la.
Estou absolutamente convencido de que a disputa com Lula e com o PT tem de se dar no terreno da política. Identificar as razões de sua força não basta para apontar o seu ponto mais vulnerável. E ele está justamente na questão ética. Pouco adianta que Alckmin ou qualquer outro oposicionista evidenciem que o modelo de “bem-estar” de Lula tem pés de barro. Trata-se, para a larga maioria das pessoas, de uma abstração. Um candidato de oposição terá, sim, de apontar as falhas do governo; terá, sim, de se identificar com esses setores médios que estão vendo esmagado o seu poder de compra ou que estão, efetivamente, perdendo salário; terá, sim, de demonstrar que o PT, do ponto de vista administrativo, produz ruína. Mas, acima de tudo, é forçoso que se apele à vergonha na cara.
Os mais céticos, lulistas e antilulistas, dirão que isso é bobagem: afinal, ninguém votaria contra a sua situação objetiva, já que a vida teria melhorado para essa maioria que ainda está com Lula. Em alguns casos, é verdade. Mas melhorou muito menos do que poderia se o governo soubesse para onde vai e se não tivesse o permanente déficit de credibilidade. Mas, ainda aqui, estamos tratando de prefigurações, de futuros e prognósticos que são pura imaterialidade.
Já a corrupção, o desmando, a violência crescente a perda de perspectiva de futuro de amplas camadas, bem, isso tudo é verdade fácil de evidenciar. Tanto é que, onde a economia é mais dinâmica e onde se exige um pouco além do simplesmente “ir vivendo” — como uma germinação espontânea —, Lula é derrotado. Perde para o que não fez, mas perde também para o que fez: o governo mais corrupto de nossa história.
Pobre também tem vergonha na cara, nunca será demais lembrar. É preciso que se evidencie que não há Bolsa Família que justifique tanta lambança. É preciso que se explicitem os reais ganhadores — econômicos e morais — das opções feitas por Lula até aqui. As urnas que estão aí, na configuração atual, são tudo aquilo com o que o PT sempre sonhou; era essa gente que o partido queria conquistar quando se dizia “de massas”. Para ganhar ou para perder as eleições, as oposições têm de ser implacáveis. O Brasil precisa de um novo gerenciamento e de mais competência. Mas também precisa de um outro norte ético. É isso o que tem de ir parar na campanha.
Lula está e sempre esteve disposto a tudo, resguardada a sua profissão de fé conservadora na economia, para não perder o poder. A proposta de uma constituinte para fazer a reforma política é a melhor prova disso. Seu partido tentou comprar o Congresso. Não deu inteiramente certo. Agora, ele quer um só para ele — e assim volta às origens. O mesmo Tarso Genro que está brincando de Constituinte foi o titular do natimorto conselhão, lembram-se? A miséria sempre tem um custo orçamentário; se explorada eleitoralmente, também tem um custo institucional.